domingo, 03 de março de 2024

Política: O uso político da fé religiosa como arma ideológica: o futuro do Brasil depende desse debate

É como se ninguém tivesse visto. Distraídos pelas sedutoras narrativas da democracia racial, do homem cordial e da multiculturalidade, deixamos de observar com o cuidado necessário os sinais de que, sobretudo na última década, o Brasil estava sendo inserido de maneira lenta, mas sólida e progressiva, no movimento ideológico global do Nacionalismo Cristão Conservador, gestado sobretudo pela estrema direita e pela direita alternativa dos Estados Unidos. Não se trata de um movimento religioso, mas sim político, que usa o discurso religioso como isca de atração ideológica para construção de uma nação pura, autoritária e conservadora abençoada por D’eus.

Estávamos olhando para outro canto, como bem alerta o teólogo e pastor Ronilso Pacheco em artigo no The Intercept Brasil, enquanto Eduardo Bolsonaro construía relações estreitas com o governo conservador e antidemocrático de Trunp e o governo Bolsonaro se tornava espelho de Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria que cunhou um discurso político-ideológico de valorização da família cristã e da identidade nacional como máscara para a sua truculência autoritária. Enquanto discutíamos alguma tolice dita pelo chefe da nação no cercadinho, a ministra da Família, das Mulheres e dos Direitos Humanos Damares Alves participava, em 2019, da 3ª Cúpula da Demografia de Budapeste, convenção internacional organizada pela então ministra húngara da Família, Katalin Novák, que tinha no centro do debate a construção de um povo puro e as políticas de restrição a imigração. Damares hoje é senadora da república eleita e Novák presidenta da Hungria. Observe os sinais.

Enquanto o debate nacional girava em torno da imbrochabilidade do presidente da república, as eleições estratégicas de Mario Frias (anti-cultura), Ricardo Sales (anti-meio ambiente), do militarista Mourão,da ultra-reacionária Damares, de Marcos Pontes (O ministro da ciência que não defende a ciência), da musa do veneno e anti-indígena Tereza Cristina, do líder armamentista Marcos Pollon, dentre outros, caminhava a passos largos, garantido a representação ideológica nas entranhas do Estado do pensamento autoritário, reacionário e elitista que Bolsonaro pretende consolidar em um eventual 2º mandato.

Não se trata, portanto, de uma questão religiosa, mas essencialmente de uma questão política. Não é uma guerra santa, mas uma disputa ideológica de hegemonia no pensamento social sobre o modelo de sociedade que queremos construir.

Os fundamentos ideológicos da extrema-direita reacionária colidem com os fundamentos estabelecidos na Constituição Federal de 1988 para a organização da sociedade brasileira. As ideias de liberdade, inclusão, diversidade, multiculturalidade, inviolabilidade da dignidade da pessoa humana, prevalência dos direitos humanos, separação dos poderes, preservação do meio ambiente e dos povos originários, combate a todo tipo de discriminação, preconceito e racismo, proteção ao trabalhador e ao emprego, salário mínimo digno, saúde e educação pública, gratuita de qualidade e acesso universal, laicidade do Estado e proteção social dos vulneráveis, dentre outros cravados como normas constitucionais que orientam a construção e gestão da nação brasileira, estão ameaçados pelo incalculável risco para a democracia brasileira que representa esse novo parlamento eleito associado a uma eventual vitória de Bolsonaro.

A disputa que está em jogo não é sobre a fé, mas sobre os direitos e garantias que tem influencia objetiva no dia a dia da vida das pessoas. O que está em disputa é o futuro do SUS, das universidades públicas, do valor do salário mínimo, do preço dos alimentos e controle da inflação, das políticas públicas de geração de emprego e respeito a diversidade étnica, cultural, regional, religiosa e de gênero. O que está em jogo é a sobrevivência da constituição como escudo que defende as minorias, as crianças, os negros, os índios, as mulheres, o trabalhador, o meio ambiente e a liberdade. É sobre isso que devemos debater: sobre que modelo de país queremos, includente ou excludente, livre ou autoritário, pacífico ou violento, tolerante ou intolerante, que ama as artes e a ciência ou que as fustiga, que defende os vulneráveis ou os abandona a própria sorte, que respeita a Constituição e a separação dos Poderes ou que pretende destruí-las.

Não é sobre a fé religiosa, nem é uma escolha difícil. Olhe bem, não se deixe distrair pelas firulas que querem desviar os olhares do que realmente importa. O voto do dia 30 outubro não é sobre e nem decidirá se o Brasil é ou não um país cristão, mas se poderá retomar o caminho de uma democracia constitucional ou se terá passe livre para caminhar ao encontro do abismo político.

*Isaac Luna é cientista político, advogado e professor universitário

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