segunda-feira, 15 de julho de 2024

Complexos Mais Infância se consolidam como espaço de desenvolvimento para crianças e adolescentes autistas

Na brinquedoteca do Complexo Mais Infância do Curió, Sofia, 9, se desenvolve brincando com outras crianças, e aos poucos, vai aprendendo a importância de coisas simples, como dividir os brinquedos com os coleguinhas. A pequena é autista e frequenta o espaço desde janeiro deste ano. Ela é uma dentre as mais de 100 crianças autistas atendidas nos três Complexos Mais Infância de Fortaleza, equipamentos coordenados pela Secretaria da Proteção Social (SPS). Na Capital, os complexos estão localizados nos bairros Cristo Redentor, Curió e João XXIII.

Ana Paula Nobre, 43, e Maikel Lima, 42, são os pais da Sofia. Para eles, depois que ela passou a frequentar o Complexo, seu comportamento vem mudando notavelmente. “Minha filha passou a socializar com outras crianças neste espaço. Foi aqui que ela começou a conversar, a perguntar o nome das colegas de turma e a lembrar de fato dessas colegas. Isto foi um avanço enorme para ela, que antes não desenvolvia essas relações na escola, nem na vizinhança”, lembra Ana Paula.

“Aqui nós encontramos um porto seguro, é o único lugar onde eu confio de olhos fechados em deixar minha filha, seja com a psicóloga ou com os instrutores, porque sei que eles têm preparação para atendê-la e vão saber como lidar caso ela apresente uma birra, que é um comportamento típico do autista”, conta Maikel, que lembra: “Nós, pais de alunos com autismo, também recebemos acolhimento neste espaço, e isto é tão importante porque muitas vezes já chegamos esgotados da rotina de cuidados que dedicamos para que ela se desenvolva plenamente. Poder ver minha filha brincando e aprendendo a tocar teclado também é uma cura pra nós, um conforto em meio à nossa luta para que ela acesse todos os seus direitos e se desenvolva em todos os aspectos”, desabafa o pai da Sofia, enquanto recebe um “abraço preguiça” da filha, que tem como um dos seus hiperfocos, o bicho preguiça.

“Muitas famílias chegam às nossas unidades sem sequer saber que seus filhos podem ter alguns destes transtornos e nós auxiliamos a identificar estes diagnósticos, fazemos encaminhamentos para equipamentos da saúde e acompanhamos a evolução destas crianças e adolescentes para que possam se desenvolver plenamente”, destaca a psicóloga do Complexo do Curió, Sarah Araújo.

Lugar de inclusão, de pertencimento

Liana Santiago coordena o equipamento e explica que uma das prioridades do Complexo é ser um espaço de inclusão, um lugar de pertencimento. “Nós estamos em constante troca com os instrutores para que as crianças e adolescentes se sintam acolhidas de verdade e para que sejam vistas em todas as suas nuances. Nenhuma criança é igual a outra e o nosso desafio é dar para todas elas a possibilidade de se desenvolverem plenamente neste espaço através das brincadeiras, da música, da dança e das diversas atividades e cursos que disponibilizamos para a comunidade.

Giovana Ribeiro, 10, é a caçula de três irmãos. Sua mãe, Glaeda Ribeiro, 47, conta que o diagnóstico de autismo, TDAH e ansiedade veio quando ela tinha seis anos de idade. “Fui percebendo alguns comportamentos diferentes. Quando a Giovana estava nervosa ela andava na ponta dos pés, e quando estava muito ansiosa, chegava até a arrancar as unhas dos pés, o que me preocupou muito, então procurei ajuda e passei a levá-la a todas as terapias necessárias”, explica Glaeda, que percebeu a mudança positiva no comportamento da filha após frequentar as aulas de música do Complexo do Curió. “Ela me pede para trazê-la para brincar no complexo. Além das aulas de teclado que ela adora, tem a psicóloga e a coordenadora que assim que ela encontra já vai abraçando as duas e eu só tenho a agradecer por este espaço que tem feito toda a diferença para o desenvolvimento da Giovana”, complementa Glaeda.

Os cuidados e carinhos com as crianças e adolescentes autistas não acontecem só no Complexo do Curió. Do outro lado da cidade, no Complexo do João XXIII, Vitória Ingredy, 11, pratica aulas de muay thai e rompe todos os dias com uma barreira que é invisível para os neurotípicos: a socialização. Engatar uma conversa ou até mesmo perguntar o nome do colega de sala podem ser desafios enormes para ela. “Aqui eu aprendi a importância de fazer as atividades em equipe, entendi que precisamos sempre do outro e consigo me comunicar melhor depois que entrei no muay thai, além também de melhorar minha alimentação seguindo as dicas do professor”, conta Vitória, uma das alunas mais disciplinadas da turma.

Josy Andrade, 31, é mãe da Ingredy e conta que é uma alegria ver sua filha se desenvolvendo tão bem através de um esporte. “Eu fico muito orgulhosa dela, de ver a evolução que ela conquistou ao longo dos últimos meses. Hoje, ela conversa, tem amigas que também praticam muay thai e está cada vez mais aberta a conhecer novas pessoas, o que me deixa muito feliz”, frisa Josy.

A titular da Secretaria da Proteção Social (SPS), Onélia Santana, destaca que é emocionante ver tantas famílias com crianças e adolescentes autistas sendo acolhidas nos complexos. “Nós criamos os complexos para que fossem verdadeiros espaços de inclusão, onde toda a família pudesse ser acolhida, e estes depoimentos são resultado de um trabalho coletivo, de muita dedicação dos profissionais que atuam nestes equipamentos e que atendem estas comunidades”, observa.

Ela acrescenta que a SPS vem em um processo de qualificação de suas equipes para que todos possam atender e acolher as pessoas autistas e seus familiares. “Recentemente, trabalhamos esse atendimento qualificado com todas as equipes do Caminhão do Cidadão e com as Casas do Cidadão, pois a documentação básica é um direito fundamental e possibilidade de acesso a outros tantos direitos. Queremos que esse atendimento se dê da melhor forma possível. Agora, vamos iniciar esse mesmo processo com todos os equipamentos sociais”, pontua a secretária.

Em seguida, a ideia é ofertar essa qualificação aos municípios, para aprimorar o atendimento realizado nos Centros de Referência em Assistência Social (Cras).

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