sábado, 02 de março de 2024

Coluna Política: O recado político na fritura de Marina Silva

Marina Silva é uma ativista ambiental, alguém que foi projetada ao mundo da política eleitoral em razão da causa que defende. É, portanto, um quadro político raiz, que surge das entranhas das lutas sociais, fortemente vinculada aos princípios e aos propósitos da causa que defende. Representa uma categoria de políticos cada vez mais rara, já que não subordina as suas bandeiras ao cálculo frio do resultado eleitoral.

Essa característica, aliada à sua causa, a coloca no alvo dos ataques predadores da hobbesiana e antropofágica arena político-partidária-eleitoral, cujo a lógica gira em torno da conquista e manutenção do poder formal do Estado e da garantia de interesses e privilégios de grupos.

A causa do meio ambiente, por mais necessária, urgente e inadiável que seja, não goza ainda de apelo eleitoral estatisticamente relevante no Brasil, já que a sua discussão e as suas pautas mobilizam um número muito restrito de pessoas, basicamente gente ligada a discussão acadêmica, movimentos ambientalistas e setores da classe média mais ilustrada, o que é cada vez mais raro. Trocando em miúdos: a causa ambiental não dá votos em quantidade suficiente para se impor como pauta inegociável no jogo político.

Não bastasse essa questão, há um outro fator que ajuda a entender a ação orquestrada do congresso, sob o olhar passivo do governo, de esvaziamento político do ministério comandado por Marina: trata-se dos interesses monetários, que veem na pauta ambiental um entrave para o avanço dos negócios financeiros sobre áreas de proteção ambiental e a política de sustentabilidade. A luta para salvar o que ainda resta de Mata Atlântica, Pantanal, Floresta Amazônica e outros biomas é vista como sendo, muitas vezes, antagônica ao avanço do agronegócio, da grilagem e do histórico latinfundiarísmo brasileiro.

Como Marina não cede a pressão política nem financeira, escolhendo defender a causa e os princípios que lhe orientam ética e politicamente, transforma-se em alvo privilegiado dos setores que tem agendas antagônicas a questão ambiental, ou seja: sofre ataques que visam torná-la politicamente fraca por ser eticamente forte.

O esvaziamento do Ministério do Meio Ambiente, ademais, é sintomático da conjuntura política brasileira atual, na qual o presidente Lula precisa ceder em agendas históricas do pensamento e luta social progressista das esquerdas para garantir um mínimo de governabilidade em um congresso majoritariamente formado por parlamentares ligados a grupos de interesses vinculados ao agronegócio, ao setor financeiro especulativo e a pautas conservadoras e moralistas, a chamada bancada BBB – boi, bíblia e bala, ladeada do fisiologismo amorfo do centrão.

O prestígio internacional de Marina na pauta ambiental, porém, é fundamental para credibilidade dos compromissos assumidos pelo presidente Lula nos seus pronunciamentos na arena global sobre o tema, o que, ao lado da pressão interna das bases para uma reação do governo ao ataque do congresso, fez com que o presidente tivesse que se pronunciar e reafirmar os compromissos programáticos assumidos na campanha sobre a questão, mas sem assumir o compromisso  peremptório de reverter o desmonte ministerial.

Tudo que se colocou até aqui sobre Marina, serve também para Sônia Guajajara, que assiste de camarote o enterro do seu recém criado Ministério dos Povos Indígenas do Brasil, pelos mesmo e exatos motivos do esvaziamento do Ministério do Meio Ambiente: a causa que defende, por mais justa, necessária, civilizatória e eticamente inquestionável que seja, não dá dinheiro nem voto.

Nesse contexto atual da cultura política brasileiro, aliado a conjuntura e correlação de forças no congresso que emergiu das urnas, não haverá vida fácil para Marinas, Guajajaras, nem Margareth’s.

*Isaac Luna é cientista político, advogado e professor universitário

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