domingo, 14 de julho de 2024

Museu Orgânico Casa de Doces João Martins: uma homenagem aos sabores tradicionais do Cariri

Segundo pesquisadores, foi na Índia do século V, que se desenvolveu a técnica de solidificar o caldo extraído da cana-de-açúcar e transformá-lo em cristais granulados. Uma iguaria exclusiva da nobreza, usada apenas para fins de medicamentos e como especiaria. Hoje, tão popular e necessário, o açúcar, que tudo adoça, é a matéria-prima do próximo Museu Orgânico a ser inaugurado pelo Sesc em parceria com a Fundação Casa Grande, em Juazeiro do Norte: a Casa de Doces João Martins.

Será o 11º Museu da Região e o 1º que homenageia a gastronomia local, no caso, os tradicionais doces caseiros, comercializados há 58 anos no Centro da cidade. Os Museus Orgânicos são baseados no vínculo com a história e dos lugares onde vivem e atuam os mestres de cultura popular. O projeto nasceu com o amadurecimento da parceira com a Fundação Casa Grande, localizada na cidade de Nova Olinda, para o fortalecimento de uma rede formada por lugares de memória, sendo o Sesc um ativador desses espaços.

Para que se tornem Museus Orgânicos, os projetos passam por pesquisas e estudos consistentes a respeito de cada tradição cultural, suas referências coletivas e o impacto na comunidade. A Casa de Doces João Martins, segundo Alemberg Quindins, gerente de cultura do Sesc Ceará, foi escolhida devido a tradição da cultura do doce, além da sua autenticidade e originalidade.

“É uma casa que você vai para degustar o doce e beber a água de pote no copo de alumínio. Foi assim que surgiu essa casa do doce que até hoje segue os mesmos padrões. É uma gastronomia folclórica de Juazeiro e do Cariri”, pontua.

Doce ofício

O processo de produção do açúcar possui várias etapas; a de construção de um comércio e do ganha pão de uma família, também. Mas, primeiramente, vamos à peleja do açúcar. A cana-de-açúcar é moída, aquecida, filtrada, concentrada e centrifugada, para então, obter os cristais de sacarose, que inicialmente tem aparência escurecida. A partir daí o açúcar passa por um processo químico de clareamento e refinamento, e finalmente ganha a aparência de um cristal branco.

Já o caminho que alguém percorre quando decide montar seu próprio negócio, pode não ser igual ao percurso do açúcar, mas também é feito de várias etapas.  Com a Casa de Doces João Martins não foi diferente. João Martins nasceu em 1937, em Juazeiro do Norte. Filho de Manoel Martins e Águida Maria, não quis seguir no mesmo caminho do pai, o da Agricultura, e resolveu produzir e vender doces. “Veio na minha cabeça e eu disse, vou fazer”, lembra sr. João.

O início foi feito junto com a mãe Àguida, experimentando as receitas, errando e tentando novamente. “O primeiro doce que fiz foi de batata, mas não prestou para nada. Fui tentando fazer outros doces e foi melhorando, mas ainda não prestava para vender, porque não dava o ponto direito. Fui prestando atenção onde precisava mudar até que um dia deu o ponto e ficou bom. O ponto é quando levanta a colher de pau e o doce não desprega, é sinal que está bom, aí deu o ponto”, explica.

Madeilton entra em campo

João Martins finalmente acertou no ponto e na ideia. Em 1965, na rua Santa Luzia, número 545, nascia então o comércio de doces caseiros mais famoso de Juazeiro do Norte, que logo depois ganhou o título de tradicional doce de Madeilton.  Cunhado de João Martins, Madeilton chegou para ajudar. Mas além dos serviços administrativos e de atendimento na Casa de Doces, ele tinha outra ocupação, era cronista, comentarista e narrador de futebol.

Madeilton escrevia com detalhes, crônicas e comentários sobre os jogos de futebol e encaminhava para a rádio Progresso. Assim, ficou conhecido por essa prática e pela paixão pelo futebol, chegando a criar o próprio time para competições locais. Após as partidas, virou hábito “reunirem-se em Madeilton” para comer doce. Dessa forma, ele deu uma grande contribuição para que o espaço se tornasse cada vez mais popular e conhecido como o Doce de Madeilton.

Onze tipos de doces são produzidos e comercializados: leite fresco, leite cortado, batata, banana, mamão, coco, abacaxi, caju, goiaba, amendoim e gergelim. Ao longo dos anos, vários familiares de João Martins passaram pela Casa de Doces. Ele seguiu à frente do comércio que fundou por mais de cinquenta e cinco anos, se aposentando das suas funções em 2018. Atualmente, uma filha e genro de João Martins são os administradores.

A Casa de Doces João Martins, o tradicional doce de Madeilton, tornou-se parte da história do comércio de Juazeiro do Norte. Agora será um Museu Orgânico, por carregar saberes, fazeres, memórias, aromas e sabores que fazem parte do patrimônio imaterial da cidade de Juazeiro do Norte e toda a região do Cariri.

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