segunda-feira, 11 de maio de 2026

ABÔ TIDZÍ ERÃ: exposição coletiva reúne 15 mulheres das artes gráficas do Cariri, no Banco do Nordeste Cultural

No dia 15 de maio, às 18h, na Galeria do 4º andar do Centro Cultural Banco do Nordeste – CCBNB Cariri, será aberta a exposição ABÔ TIDZÍ ERÃ. A exibição reúne trabalhos de 15 mulheres das artes gráficas do Cariri cearense e tem como fio condutor a ancestralidade, a memória e o território, tudo orquestrado pela força geradora e guardiã da vida – o ser fêmea.

A ideia surgiu a partir do encontro potente entre duas artistas e professoras do Cariri, Zulmira Correia e Andréa Sobolive. Zulmira, que no Mestrado em Design e Artes Visuais já pensava em memória gráfica, passou a se perguntar porque essas mulheres, artistas gráficas, não constavam nas bibliografias. “A memória gráfica é pensar o que o território produz a partir de seus materiais gráficos, seja a tipografia pintada numa parede, seja a xilogravura, o cordel, a capa de cordel, a tipografia artesanal… Tem mulheres na rede Matriz, como Erivana e Jô, que produzem há 30 anos. Então, por que essas mulheres não estão na bibliografia? Porque, quando eu pesquisava, eu não encontrava nada? Então, eu fui delimitando o meu recorte para entender a memória gráfica produzida pelas mulheres”, explica Zulmira.

Apagar o apagamento

Na inquietação e na busca por meios de creditar estas mulheres nas referências bibliográficas, Zulmira e Andréa idealizam o projeto “Grafias femininas de um Cariri – De qual Cariri falamos?”. Ainda no mestrado, Zulmira já pensava em escrever um livro que contemplasse essa lacuna das mulheres gráficas nas bibliografias, mas o tempo era escasso. Agora, com o mestrado concluído, Zulmira e Andreia se encontram neste lugar de potência feminina, pesquisa e arte. “Eu falei: ‘Andréa, eu tenho a ideia de produzir um catálogo biográfico. Porque a gente não encontra bibliografia, e isso é urgente! Foi aí que eu comecei a trocar com o Andréa para pensar melhor, pensar uma exposição, pensar um material bibliográfico”. Assim, elas escreveram o projeto, que foi aprovado no 4º Edital Territórios Periféricos, apoiado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria da Cultura do Ceará, com recursos provenientes da Lei Federal nº 14.399, de 8 de julho de 2022.

ABÔ TIDZÍ ERÃ: exposição coletiva

A primeira entrega do projeto “Grafias femininas de um Cariri – De qual Cariri falamos?” é uma exposição coletiva, autoral e inédita: ABÔ TIDZÍ ERÃ. A iniciativa reúne trabalhos de 15 mulheres das artes gráficas do Cariri cearense e estará no Banco do Nordeste Cultural – Juazeiro do Norte, de 15 de maio a 19 de junho.

Partindo do título que remete a semântica da palavra FÊMEA, a exposição “Abo Tidzí/fêmea” (Abo-fêmea em Yorubá e Tidzí-fêmea em língua Kariri) mostrará obras que terão como fio condutor a ancestralidade, a memória e o território, tudo orquestrado pela força geradora e guardiã da vida – o ser fêmea.

A identidade visual da exposição será guiada por um elemento indispensável nas artes visuais, o elemento COR, no caso, amarelo, que na língua Kariri grafa-se “Erã”. Esse elemento assume um protagonismo interessante em um território que é solar, que brilha, que é quente, que produz arte em profusão. Entre as artistas que estarão expondo, há perfis diversos.

“Parece que eu sou a avó delas”

Dona Iraci é a artista mais antiga entre as 15 da exposição. Aos 87 anos – calculados por ela na hora da entrevista – seus olhos azuis ainda cintilam ao lembrar da sua trajetória na xilogravura. Natural de Baixio, no Ceará, Dona Iraci chegou em Juazeiro do Norte aos 13 anos e, aos 18, casou com Lino da Silva, filho do editor da Lira Nordestina (antiga Tipografia São Francisco), José Bernardo.

Em 1959, Dona Iraci inicia seu trabalho na xilogravura, sendo co-autora de diversas capas de cordéis e outras produções junto com o marido. Em 1962, participou do nascimento do álbum “A Vida do Padre Cícero”, de autoria oficial de Lino da Silva, encomendado por Sérvulo Esmeraldo, a pedido da Universidade Federal do Ceará. O professor, jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho era outro cliente assíduo de Dona Iraci. Desde a morte de Gilmar, em 2021, Dona Iraci não tinha mais produzido com frequência, até ser convidada para a exposição e composição do catálogo. Mãe de oito filhos, três homens e cinco mulheres criados entre as tipografias, goivas e poesias, ela nunca tinha se dedicado a produzir algo que não fosse fruto de uma encomenda. “Eu fazia o que aparecesse, o que chegasse. Não tinha isso não. A encomenda que dizia”, conta.

Dona Iraci era a única mulher que fazia produções de xilogravura na Tipografia São Francisco. Ela conta que não sentia o peso do preconceito, mas que se surpreende hoje de ver as mulheres reunidas para gravar. A família dela a impulsionou a aceitar o convite para integrar a exposição. O momento será, também, um reencontro da artista com muitas de suas obras que hoje estão no acervo do Museu de Arte da Universidade Federal do Cariri (Mauc). “As meninas dizendo: ‘É melhor que a senhora saia, para não ficar aí triste, sentada, sem ter o que fazer. É bom que vá trabalhar!’. É melhor mesmo. Eu me sinto bem fazendo”, revela. Na mesma exposição, há artistas bem jovens, como Mel, de 18 anos. Dona Iraci ri e diz: “parece que eu sou a avó delas”.

ABO TIDZÍ ERÃ expõe obras de Andréa Sobolive, Erivana Darc, Jô Andrade, Dora Moreira, Zulmira Correia, Dinha Fonseca, Paula Geórgia Fernandes, Sonha Araújo, Mel Araújo, Lidiane Pereira, Jaque Rodrigues, Nathaly Lavôr, Vitória Moura, Jozana Anadias e Iraci Brito. A equipe é formada integralmente por mulheres, com expografia de Edileuza Amorim, curadoria de Ana Claudia Isidorio e produção de Shayná Moura.

A próxima entrega do projeto “Grafias femininas de um Cariri” é o catálogo bibliográfico, com impressão de 400 exemplares, além da versão virtual e audiolivro. A distribuição será feita em museus, bibliotecas e outros espaços que promovam a democratização do acesso à arte.

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