No quilombo de Itacuruçá, em Abaetetuba, no Pará, o enfrentamento à crise climática começa com o plantio.
Ali, mulheres do Coletivo Mãe Preta: Sementes da Ancestralidade criaram um jirau medicinal que hoje reúne cerca de 250 plantas. O espaço mobilizou mais de 100 mulheres, fortaleceu o uso de saberes tradicionais e deu início ao mapeamento de 140 espécies medicinais do território. O jirau se tornou uma estratégia de cuidado coletivo e uma resposta concreta às mudanças ambientais que já afetam a vida na comunidade.
A experiência não é isolada. Em diferentes regiões da América do Sul, mulheres indígenas, quilombolas, agricultoras, ribeirinhas e lideranças urbanas vêm construindo soluções próprias para enfrentar a crise climática, muitas vezes com poucos recursos, mas com forte enraizamento nos territórios.
Essas iniciativas incluem desde sistemas agroflorestais e recuperação de áreas degradadas até comunicação comunitária, formação política e incidência em políticas públicas.
Uma publicação recente sobre esse tipo de atuação analisou experiências no Brasil, Bolívia e Paraguai e identificou um padrão: as respostas mais consistentes à crise climática têm surgido justamente nas comunidades mais expostas aos seus impactos.
Ao todo, foram mapeadas 75 organizações e coletivos comunitários, grande parte deles liderados por mulheres e atuando diretamente em seus territórios. Mais da metade dessas iniciativas está localizada em áreas rurais, florestais ou periféricas. Muitas operam fora das estruturas formais de financiamento, como coletivos informais ou redes comunitárias. Ainda assim, conseguem gerar impactos concretos: fortalecem a soberania alimentar, ampliam o acesso à água, protegem territórios e criam redes locais de apoio e mobilização.
Esse cenário ganha ainda mais relevância diante das múltiplas pressões sobre esses territórios. A expansão da fronteira agropecuária, por vezes associada a desmatamento ilegal, e a implantação de grandes projetos de infraestrutura, mineração e empreendimentos energéticos, frequentemente acompanhadas de disputas por terra e recursos naturais, fazem parte do cotidiano de muitas dessas comunidades. Em paralelo, eventos extremos como secas, enchentes e incêndios florestais se intensificam.
Nesse contexto, as respostas construídas localmente se consolidam como formas de resistência e adaptação. O levantamento também chama atenção para um padrão recorrente: mulheres estão entre as mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas, mas também entre as principais responsáveis por construir alternativas.
Essa dinâmica se cruza com desigualdades estruturais relacionadas a gênero, raça e classe, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social. Ainda assim, essas lideranças seguem à frente de processos que articulam proteção ambiental, geração de renda e fortalecimento comunitário.
Os dados e análises fazem parte da publicação “Mulheres Potentes – Financiando Gênero e Liderança na Ação Climática”, desenvolvida pela pesquisadora Graciela Hopstein a partir da atuação da Aliança GAGGA — uma iniciativa internacional voltada ao apoio de organizações lideradas por mulheres e dissidências de gênero.
No Brasil, parte desse apoio foi articulado pelo Fundo Casa Socioambiental, que ao longo dos últimos anos apoiou organizações comunitárias nos três países analisados.
A publicação reúne dados, estudos de caso e entrevistas com lideranças, financiadores e organizações parceiras, buscando compreender não apenas os resultados, mas os processos que se desenvolvem ao longo do tempo. Entre eles, o fortalecimento de lideranças femininas, a formação de redes entre movimentos e o aumento da capacidade de incidência política dessas organizações.
Num momento em que o financiamento climático enfrenta incertezas e disputas sobre prioridades, essas experiências indicam um caminho possível: fortalecer quem já está atuando nos territórios. Porque, em muitos casos, as respostas para a crise climática não precisam ser criadas do zero.
Elas já existem e continuam sendo cultivadas, todos os dias, por quem vive e cuida da terra.


















