A designer de moda Shayná Moura anotou, despretensiosamente, no bloco de notas do seu celular: “Fios de Reis”. O escrito viria a ser o título do seu livro, aprovado em primeiro lugar no 14º Edital Ceará das Artes, realizado pelo Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), e do Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura (Secult Ceará). O nome do livro veio pronto. Era Dia de Reis de 2025, e Shayná estava com um amigo durante as festividades da data quando sentiu a necessidade de registrar a ideia no seu smartphone. A princípio, o nome seria usado para uma pesquisa de mestrado, mas o emaranhado de afetos, datas e oportunidades costurou os Fios de Reis para uma publicação cheia de manualidades e identidade, partindo da relação de afeto com o Reisado São Francisco, do Mestre Dodô, em Juazeiro do Norte.
“Livro de uma designer artesã”
Shayná cresceu conectada à cultura do Cariri. Ainda pequena, frequentava muitos espetáculos teatrais com sua tia, Charline Moura, atriz. Durante a infância, fez aulas de dança, teatro e circo. “Desde pequena fui costurando esse olhar para a arte, e como o reisado é uma manifestação tradicional daqui [do Cariri], não tive um grande ‘despertar’, tudo se apresentou de forma muito natural”, conta.
Ao entrar no curso de Design de Moda, na Universidade Federal do Cariri, e também depois de uma temporada na capital Pernambucana, Shayná passou a ter um olhar de desejo pelo pertencimento e representatividade do Cariri. “Hoje eu vejo que esse livro assenta um caminho que eu já vinha construindo – com medo mas nunca larguei a mão. Quando estava na faculdade e comecei a pesquisar afeto a partir das técnicas manuais, me desafiei dentro da academia porque queria falar de amor, escrevi tudo em primeira pessoa e sobre a minha família. Agora esse livro também é sobre amor, é a forma que eu amo a moda, que eu amo essa região, que eu amo o reisado São Francisco. Nem sempre eu sou boa com as palavras, mas sou boa com as mãos e a forma que eu aprendi melhor a me comunicar foi pela manualidade. Apesar de ser um livro que traz muitas fotografias, ele é um livro, antes de tudo, manual. É assim que meu corpo fala. É um livro de uma designer artesã”, explica.
Relação com o Reisado São Francisco, do Mestre Dodô
A relação com Francisco Joventino da Silva, mais conhecido como Mestre Dodô, foi “encantamento”. Shayná conta que um momento marcante foi a renovação na Casa Ucá, um Ponto de Cultura, localizado em Crato, Ceará. “Foi encantamento mesmo! Com certeza eu já tinha visto o Reisado São Francisco antes, mas minha memória não é tão boa [risos]. Eu lembro de uma renovação da Casa Ucá onde ele se apresentou e eu levei minha avó e bisavó pra assistir. Depois vi várias apresentações, e no Encontro dos Mestres do Mundo ficamos mais próximos porque recebi um amigo da Paraíba, Arthur, que é muito fã do Mestre Dodô e ficamos fazendo visitas a ele com frequência. Quando eu escrevi o projeto Fios de Reis para o Edital, não coloquei qual seria o Reisado, mas eu já sabia que queria trabalhar com eles porque já existia essa proximidade”, relembra.
A costura e os laços dos Fios de Reis
A ideia inicial era produzir uma catalogação dos figurinos do Reisado São Francisco, mas durante as visitas e escutas, a produção tomou um novo rumo. “O que parecia me travar pela falta de registros das roupas, pela forma que o grupo mesclava as vestimentas nas apresentações e pelas modificações que foram feitas ao longo dos anos, transformou-se em método, e o livro decidiu o que seria junto com as peças”, relata. Assim, o livro traz entrevistas, fotografias do Reisado, de releituras dos trajes, texturas e técnicas como a cianotipia – um processo de impressão fotográfica artesanal.
Mestre Dodô é mestre do Reisado São Francisco e embolador do Côco São Francisco, tendo sido ambos os grupos criados por ele. Discípulo de Mestre Zé Matias, seu tio e padrinho, foi assumindo naturalmente a liderança do grupo, nas vezes em que ele não queria falar no microfone ou que não podia. O Coco São Francisco foi fundado em 1998 e o Reisado São Francisco teve início em 2001. Os dois grupos surgiram através da tradição familiar, onde amigos, irmãos, filhos, netos e vizinhos, participaram e participam da brincadeira contribuindo para o fomento da cultura popular. No ano de 2022, em reconhecimento aos mais de 50 anos dedicados à tradição, Mestre Dodô foi titulado como Tesouro Vivo da Cultura do estado do Ceará, e em dezembro de 2023 foi agraciado pela UECE como Notório Saber em Cultura Popular.
O livro “Fios de Reis” conta com uma equipe de produção totalmente caririense, e o lançamento será pela Editora Respo. A publicação tem previsão de lançamento para o dia 16 de março, em um evento aberto e gratuito, que contará com a apresentação do Reisado São Francisco. A programação acontecerá no Cassino Sul Americano, a partir das 18h, em Crato (CE), e terá também um pocket show com Carla Ribeiro. Toda a programação terá acessibilidade em Libras.
Shayná Moura
Shayná Moura é artesã e designer de moda, formada pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com atuação voltada à pesquisa em têxteis, memória, cultura popular e processos manuais.
Desenvolve trabalhos que transitam entre moda, arte e território, com experiências em produção de moda, figurino e projetos formativos. Atuou em eventos como DFB Festival, SPFW e Ceará Está na Moda, além de integrar projetos do Instituto C&A e iniciativas de pesquisa sobre figurinos de reisado no Cariri cearense.
Atualmente, articula a gestão e produção do Cascar Lab, laboratório de pesquisa, ensino e criação em moda no Cariri.

















